É com elevado sentido de responsabilidade e missão que assumo a presidência da Associação BRP. Estou, juntamente com a restante Direção, empenhado em ampliar a influência e o impacto das nossas propostas e iniciativas na sociedade e no país, de formar a concretizar a ambição de crescimento que reclamamos para Portugal.
A descida consistente da dívida pública, a recuperação do PIB per capita e a melhoria da perceção internacional refletem uma maior estabilidade macroeconómica num contexto global exigente. O recente destaque da revista The Economist é um sinal claro de que o país recuperou credibilidade. Mas seria um erro grave confundir estas boas notícias com a resolução dos problemas estruturais que continuam a travar o crescimento do país. Apesar da relativa boa performance do crescimento nos últimos anos, esse desempenho não chega para uma melhoria sustentada da nossa economia.
Os dados da plataforma Comparar para Crescer (CpC), da Associação Business Roundtable Portugal (BRP), mostram que Portugal continua a crescer menos do que os países com os quais se comparava no início do século (Espanha, Eslovénia, Estónia, Grécia, Hungria, Itália, Polónia e República Checa, que integram a União Europeia e que, em 2000, tinham um PIB per capita nominal próximo do de Portugal). Desde 2000, o crescimento acumulado da economia portuguesa ronda os 28% (pouco mais de 1% ao ano) enquanto os países concorrentes cresceram mais do dobro. Para uma convergência sustentada com a Europa, não basta crescer alguns anos acima da média da UE. Será necessário crescer pelo menos 3% ao ano na próxima década - um objetivo ambicioso, mas alcançável com reformas consistentes. E isto num cenário demográfico mas também geopolítico, tecnológico e energético muito exigente.
O principal bloqueio ao crescimento em Portugal é a baixa produtividade, um problema estrutural e antigo. Em 2024, a produtividade por hora representava apenas 68% da média da União Europeia. Este atraso resulta sobretudo do fraco investimento: nos últimos 15 anos, Portugal acumulou um défice superior a 40% do PIB face à média europeia. Nesse ano, o investimento privado rondou os 16% do PIB e o público cerca de 3%, o valor mais baixo entre países comparáveis.
A estrutura empresarial agrava este problema. O tecido económico é dominado por microempresas, enquanto as grandes empresas representam apenas uma fração residual. No entanto, são precisamente estas que geram uma parte significativa do emprego, do valor acrescentado e das exportações. A dificuldade em ganhar escala limita a inovação, a internacionalização e a capacidade de pagar melhores salários.
O enquadramento fiscal e regulatório continua a funcionar mais como um travão do que como um incentivo ao crescimento. A carga fiscal sobre o trabalho permanece elevada, com uma progressividade muito grande desde remunerações baixas, dificultando a atração e retenção de talento. No IRC, a progressividade do sistema também desincentiva o crescimento das empresas. A isto somam-se outros custos de contexto elevados: burocracia excessiva, licenciamento muito lento e um Estado pesado, pouco transparente na forma como gere os recursos à sua disposição e, muitas vezes, pouco eficiente.
Portugal demonstrou capacidade para recuperar credibilidade e estabilidade. O verdadeiro desafio ao celebrar este momento é usá-lo para fazer escolhas aparentemente mais difíceis, mas duradouras e com impacto positivo. Isso exige mais investimento, empresas mais fortes e produtivas, uma fiscalidade mais competitiva, menos burocracia e um Estado que regule e apoie, sem sufocar, a iniciativa privada. Não há atalhos fáceis. Crescer não é uma opção ideológica. É uma necessidade económica e social, para benefício de todos.
Nuno Amado, Chairman do Millennium bcp e Vice-Presidente da Associação Business Roundtable Portugal (BRP)
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