É com elevado sentido de responsabilidade e missão que assumo a presidência da Associação BRP. Estou, juntamente com a restante Direção, empenhado em ampliar a influência e o impacto das nossas propostas e iniciativas na sociedade e no país, de formar a concretizar a ambição de crescimento que reclamamos para Portugal.
A indústria evolui mais rápido do que os programas curriculares e cada vez mais o ensino técnico especializado é valorizado, vinca Rui Paulo Rodrigues. Para o vice-presidente da Simoldes, é urgente ajustar a oferta formativa às necessidades reais das empresas.
Há ainda um desajuste grande entre o que se ensina nas escolas e a realidade das empresas, que pede uma transformação urgente na era digital. E para uma empresa industrial, como a Simoldes, essa urgência faz-se sentir diariamente. Em entrevista ao SAPO, o vice-presidente do grupo português líder na produção de moldes para injeção de plásticos e no fabrico de peças plásticas, principalmente para a indústria automóvel, que tem presença já numa dúzia de países, explica porque o ensino técnico deve ser uma aposta levada muito a sério.
Portugal está entre os 10 países da União Europeia com menor percentagem de alunos no ensino profissional, abaixo da média europeia, uma realidade que a Associação Business Roundtable Portugal (ABRP), que reúne 43 líderes de empresas e grupos empresariais de diferentes setores, geografias e fases de desenvolvimento, está empenhada em ajudar a mudar. E para isso criou o PRO’4U – Open Day Ensino Profissional, iniciativa que pretende valorizar o ensino profissional como via de futuro, aproximando alunos, famílias, escolas e empresas.
Rui Paulo Rodrigues, que amanhã abre as portas da Simoldes a eventuais futuros colaboradores, não tem dúvidas de que a indústria continuará a fazer a escalada tecnológica, mas também se tornará "mais humana naquilo que verdadeiramente importa: pensamento crítico, criatividade e relação com o cliente". E deixa um conselho a quem está a decidir o seu caminho profissional: "A decisão deve ser baseada em vocação, e não em preconceito. Mesmo porque um aluno do ensino técnico-profissional pode chegar mais longe, mais depressa e ser superior a muitos licenciados."
Portugal tem muito talento, tem a geração mais preparada de sempre. Mas existe um match entre essa capacitação e aquilo de que as empresas precisam?
Portugal tem hoje jovens altamente qualificados, curiosos, com grande capacidade de adaptação. Mas a verdade é que ainda existe um desfasamento entre as competências com que chegam ao mercado e as que as empresas realmente precisam no terreno. A indústria evolui mais rápido do que os programas curriculares. As empresas precisam de perfis híbridos — técnicos com visão digital, engenheiros que entendam automação, programadores que percebam de chão de fábrica — e isso nem sempre está refletido na oferta formativa. O talento existe; o desafio é ajustar o sistema para que esse talento esteja orientado para as necessidades reais do país.
Como é que a digitalização, a robotização e a IA generativa podem e estão já a alterar o panorama?
A transformação é profunda. A digitalização e a robotização não substituem pessoas — substituem tarefas repetitivas e perigosas, libertando os colaboradores para funções de maior valor acrescentado. A IA generativa está a acelerar tudo: desenvolvimento de produto, simulação, previsão de falhas, assistência técnica, atendimento ao cliente e até recrutamento. Para empresas como a Simoldes, isto significa, em primeiro lugar, ciclos de desenvolvimento mais curtos, maior precisão no fabrico e redução de desperdício e energia, mas também mais segurança e ergonomia e mais oportunidades para funções especializadas.
A indústria será cada vez mais tecnológica, mas também mais humana naquilo que verdadeiramente importa: pensamento crítico, criatividade e relação com o cliente.
Habituámo-nos a pensar que um licenciado ganha mais do que alguém com formação técnica. Isso ainda é verdade?
Essa realidade está a mudar — e rapidamente. O ensino técnico e profissional está hoje altamente valorizado, em especial na indústria. Um bom técnico especializado, seja de automação, robótica, maquinação, manutenção ou injeção, pode ter remunerações iguais ou superiores às de muitas funções académicas.
Não é uma tendência portuguesa; é mundial. Estamos a assistir a uma “revalorização” da engenharia prática. Num futuro próximo, o diferencial salarial dependerá mais da especialização e da capacidade de resolver problemas concretos do que da duração do curso.
Que tipo de estratégia de políticas públicas poderia aumentar a correspondência entre escolhas de formação e necessidades das empresas?
Três linhas seriam determinantes. Em primeiro lugar, a atualização contínua dos currículos técnicos, alinhada com as tecnologias que já estão nas empresas. Depois, uma aproximação real entre escolas e indústria, com estágios obrigatórios, visitas técnicas, projetos conjuntos e docentes com experiência industrial. E por fim, estabelecer incentivos ao ensino profissional, valorizando-o socialmente e promovendo trajetórias que combinem técnica com progressão académica. Isto não é apenas uma questão educativa; é estratégica para a competitividade do país.
As empresas deveriam aproximar-se mais das escolas, especialmente do secundário?
Sem dúvida. Se queremos atrair jovens para a indústria, temos de lhes mostrar o que ela realmente é hoje: moderna, tecnológica, global, com carreiras muito competitivas. A responsabilidade é mútua, em simultâneo, as câmaras municipais e os agrupamentos escolares também devem fazer esse caminho, promovendo a ligação ao tecido económico e partilhando com alunos e professores o potencial da região, as suas oportunidades e as carreiras que já hoje existem no território.
Na Simoldes, acreditamos que a aproximação deve acontecer ainda antes do ensino superior – no 9.º ano, no secundário, nas escolas técnicas. É aí que se moldam expectativas e escolhas.
Essa é uma forma de o tecido económico proporcionar experiências enriquecedoras que atraiam o talento, mas de que forma se pode concretizar?
Com experiências reais. Não há melhor forma. Com estágios bem estruturados, programas de job shadowing, hackathons e desafios tecnológicos, mas também aravés de visitas imersivas, test drives de tecnologia (IA, robótica, digital twins) e até testemunhos de profissionais jovens que passaram pelo mesmo caminho. Os jovens procuram propósito, impacto e crescimento. Se lhes mostrarmos isso, eles ficam.
O que procura a Simoldes quando recruta?
Procuramos três coisas fundamentais: competência técnica — atual e com potencial de evolução; atitude — curiosidade, vontade de aprender, espírito de equipa; e capacidade de adaptação — porque o setor muda muito, todos os anos.
E quais são as áreas de formação em que sentem mais necessidades?
As áreas onde precisamos de mais talento são as Engenharias (mecânica, de materiais, industrial); a Automação, robótica e mecatrónica; a Programação e digitalização industrial; a Manutenção especializada. Mas também temos necessidades ao nível de técnicos de maquinação CNC e eletromecânica e de perfis de qualidade e metrologia. Mas acima de tudo procuramos pessoas que queiram crescer connosco.
Abrir portas da empresa aos jovens, como acontece neste PRO’4U – Open Day Ensino Profissional, promovido pela Associação Business Roundtable Portugal, pode mesmo fazer a diferença?
Pode — e faz. Quando um jovem entra numa fábrica moderna, vê robôs, digitalização, máquinas de precisão, equipas multidisciplinares… e percebe que isto é muito diferente do que imaginava.
A imagem da indústria precisa de ser atualizada. As visitas, os estágios e os programas para escolas são, para mim, das ferramentas mais poderosas que temos para captar talento. A Simoldes tem há muitos anos parcerias com diferentes níveis de ensino, onde não só proporcionamos vários estágios, como também visitas regulares às varias empresas do grupo para que possam conhecer a nossa realidade de forma direta.
O que diria a um jovem que está a decidir entre ensino superior ou técnico/profissional?
Diria que a decisão deve ser baseada em vocação, e não em preconceito. A verdade é que ainda existe, em muitas famílias, a ideia de que o caminho “certo” é ter um diploma universitário — quase uma necessidade social de “fazer do filho um doutor”. Mas este é precisamente o preconceito que precisa de ser ultrapassado.
Hoje, um aluno do ensino técnico-profissional pode chegar mais longe, mais depressa e ser superior a muitos licenciados. As empresas valorizam quem sabe fazer, quem resolve problemas reais, quem domina tecnologia, quem conhece o processo industrial por dentro.
Se um jovem gosta de trabalhar com tecnologia, máquinas, programação industrial, automação, manutenção ou produção — então o ensino técnico pode ser o caminho mais sólido para uma carreira altamente competitiva. Se tem interesse em investigação, desenvolvimento avançado, gestão ou áreas mais conceptuais — o ensino superior será naturalmente o percurso mais alinhado. O essencial é perceber que ambos os caminhos têm futuro, ambos têm emprego e ambos podem levar muito longe. O mundo mudou: hoje o valor está na competência, não no título.
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