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19.05.2026 | Notícias - SAPO

"É urgente corrigir a exposição precoce dos alunos ao contexto real de trabalho"

O CEO da Mota-Engil realça que as profissões técnicas têm "um potencial enorme de carreira e progressão", até com oportunidades significativas a nível internacional. Em entrevista ao SAPO, Carlos Mota Santos explica porque é tempo de o ensino se abrir à comunidade.
É urgente corrigir a exposição precoce dos alunos ao contexto real de trabalho

Apesar de emprego quase garantido para quem os leve a bom porto e de permitirem que quem os cumpra possa igualmente optar por prosseguir estudos superiores (já que garantem uma dupla certificação correspondente ao 12.º ano e qualificação profissional de nível 4), em Portugal menos de 40% dos alunos optam por cumprir o ensino secundário na via profissonal. Portugal está mesmo entre os 10 países da União Europeia com menor percentagem de alunos nesta via, uma realidade que a Associação Business Roundtable Portugal (ABRP), que reúne 43 líderes de empresas e grupos empresariais de diferentes setores, geografias e fases de desenvolvimento, está empenhada em ajudar a mudar. E para isso criou o PRO’4U – Open Day Ensino Profissional, iniciativa que pretende valorizar o ensino profissional como via de futuro, aproximando alunos, famílias, escolas e empresas.

Foi no âmbito dessa iniciativa que a Mota-Engil abriu ontem as suas portas aos jovens que estão em vésperas de fazer uma escolha que pode determinar um futuro profissional mais rico. Em entrevista ao SAPO, Carlos Mota Santos, CEO da maior construtora do país e única portuguesa a figurar no top 100 mundial, que viu os seus resultados baterem recordes no ano passado, com 133 milhões de euros de lucros, explica porque quis receber este open day. E sublinha que a escola tem de se abrir à comunidade.

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Há um desajuste muito visível entre o que se ensina nas escolas e o que as empresas precisam — e isso é especialmente verdade em setores técnicos. No caso da construção e engenharia, onde é que sente hoje essa diferença de forma mais crítica e o que é “urgente” corrigir na formação de base, até num contexto de aproximação do ensino à comunidade?
Na construção e engenharia, trabalhamos em ambientes altamente exigentes, com prazos, segurança e eficiência a ditarem decisões diárias — e isso requer termos pessoas que tenham adquirido formação técnico-profissional que as vocacione para rapidamente se adaptarem a este tipo de contexto e que possam acrescentar valor.

Hoje sentimos lacunas claras em três dimensões: a aplicação prática de conhecimentos técnicos, sobretudo em contexto real de obra; a literacia digital aplicada à construção (BIM, sistemas de controlo de produção, entre outros); e a cultura de segurança e disciplina operacional, que são absolutamente inegociáveis no nosso setor.

O que é urgente corrigir é a exposição precoce dos alunos ao contexto real de trabalho, com maior integração de formação em ambiente de obra, laboratórios vivos e estágios curriculares obrigatórios. A escola não pode ser um sistema fechado — tem de estar ancorada na comunidade e nas empresas.

O PRO’4U nasce para mostrar aos alunos do 9.º ano “o lado prático, humano e inspirador” das profissões técnicas. O que é que gostaria que os jovens que vai receber levassem com eles, depois de um dia dentro da Mota‑Engil — e que a escola, muitas vezes, não consegue mostrar?
Gostaria que levassem três ideias essenciais. A primeira é que as profissões técnicas têm futuro, propósito e um potencial enorme de carreira e progressão (com oportunidades, se essa for a vontade, de abraçar projetos de grande envergadura ao nível nacional e internacional). A segunda, que aquilo que fazemos tem um impacto real na qualidade de vida das pessoas e das comunidades. E por fim, que o “saber fazer” é uma ferramenta essencial para o crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional e que por essa razão, podem e devem ser altamente dignificantes. Se um aluno sair daqui com o entusiasmo de poder querer abraçar uma carreira na Mota-Engil e no nosso setor, então já cumprimos parte do nosso propósito.

Nos últimos open days, repetiu-se a ideia de que as competências práticas aceleram a integração e até a progressão na carreira. Em que funções e percursos dentro da Mota‑Engil é que o ensino profissional pode, de facto, encurtar caminho — fazê-los chegar mais longe, mais depressa e com melhores salários do que a média nacional — e porquê?
Temos múltiplos percursos onde o ensino profissional não só encurta caminho como pode levar mais longe mais depressa. Técnicos de obra (medição, planeamento, preparação, controlo de custos), operadores especializados (equipamentos, manutenção), técnicos de segurança e qualidade e erfis de supervisão operacional são exemplos.

Os jovens do ensino profissional têm o potencial de iniciarem uma carreira no terreno, e com isso ganharem uma vantagem competitiva, pela curva de aprendizagem e experiência que vão desenvolver, permitindo-lhes evoluir de forma mais rápida para funções de responsabilidade, o que constitui uma alavanca para alcançarem patamares mais elevados de carreiras e uma progressão salarial mais efetiva.


Portugal continua com uma percentagem muito reduzida de alunos no ensino profissional e ainda existe um estigma social associado a esta via. Que responsabilidade têm as grandes empresas — e uma construtora com o peso da Mota‑Engil — em mudar essa perceção, junto de alunos e famílias, e até dos decisores de políticas públicas, influenciando-os a atrair mais candidatos a esta via?
No caso da Mota-Engil, isso traduz-se em abrir portas — literalmente — aos jovens e às famílias, dando visibilidade a histórias reais de sucesso. Também passa por investir em programas estruturados de formação e integração e trabalhar com decisores públicos para alinhar oferta formativa com necessidades reais. Temos de combater o estigma com factos: há carreiras técnicas altamente qualificadas, bem remuneradas e com progressão ao nível nacional e internacional. E temos também de influenciar o sistema — porque sem escala e sem estratégia nacional, o esforço isolado de cada empresa não é suficiente.

Quando se fala em “competências”, a conversa já não é só técnica: é também cultura de segurança, rigor, trabalho em equipa, disciplina, responsabilidade... Que “competências invisíveis” procura mais num jovem que entra para uma área técnica e como é que a empresa pode ajudar a materializá-las em parceria com escolas?
As competências técnicas aprendem-se. As invisíveis são precisamente aquelas que podem fazer a diferença. Destaco cinco: ambição e responsabilidade, disciplina, capacidade de trabalhar em equipa, rigor na execução e compromisso com a segurança
Num trabalho que deve ser desenvolvido em parceria com escolas, é essencial trabalhar este tipo de mindset, designadamente através de uma avaliação e de formação em competências emocionais; de projetos colaborativos onde o espírito de equipa e responsabilidade individual estejam bem patentes e de simulações de contexto real.

Que compromissos é que gostaria de ver do lado do sistema de ensino — e que compromissos assume a Mota‑Engil — para que esta ligação entre escola e tecido empresarial não seja um evento pontual, mas um modelo de continuidade?
Se queremos que esta ligação seja estrutural e não pontual, precisamos de compromissos claros. Do lado do sistema de ensino, isso passa pela integração obrigatória de formação em contexto de trabalho, por maior flexibilidade curricular para adaptação às necessidades do mercado e valorização efetiva do ensino profissional (não como segunda opção). Do lado da Mota-Engil (e de outras empresas), materializa-se em programas contínuos de estágios, mentorias e estágios-duais, mas também na participação ativa no desenho curricular, disponibilidade permanente para abrir portas e integrar jovens e no investimento na formação contínua ao longo da carreira.

O que defendemos é simples: não basta aproximar escola e empresa — é preciso integrá-las num mesmo ecossistema de desenvolvimento de talento.

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